quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Marketing para o mercado Chinês

Mesmo depois de tanto tempo a trabalhar e a conviver com colegas chinesas parece estranho que ainda consiga ficar surpreendida com algumas coisas. Segundo me dizem, a minha integração na cultura já é visível, e a minha nova colega adora que eu faça perguntas relacionadas com a cultura local. Segundo ela não há muitos estrangeiros com essa vontade de perceber.

Foi precisamente esta colega, vulgar plebe, que me brindou com uma conversa, aparentemente normal, mas que é exemplo daquilo que nos distingue.

Tudo começou com uma tarefa muito simples: preparar uma campanha de marketing e seleccionar uma imagem que ilustre um pedido de casamento. Sendo uma portuguesa a comunicar para mercado chinês (a tentar, pelo menos), convém sempre filtrar as ideias, não vá ser o caso de inadvertidamente falhar completamente a mensagem. E assim fiz.

Depois de algum tempo à caça de boas fotos, apresentei-lhe uma dúvida. Mostrei-lhe uma foto de um homem de costas, a esconder um anel de noivado e um ramo de flores na mão. Eu queria saber se era óbvio tratar-se de um pedido de casamento.

Resposta imediata: NÃO!

Como não?!

Estarei a falhar assim tanto a cultura Chinesa?

O que está a faltar? Porque que é que a foto não resulta e não é óbvia?

Resposta imediata: O diamante não é suficientemente grande! E as flores não são suficientemente grandes. Ninguém aqui em Macau se atreveria a fazer uma proposta de casamento com uma "pedra" tão pequena! "SE ATREVERIA" foram as palavras exactas da criatura.

A Princesa ficou num misto de perplexidade, ingenuidade e vergonha.

Genuinamente surpreendida com esta visão materialista do romance, a achar que eu afinal vivo mesmo num conto de fadas e cheia de vergonha de partilhar a minha proposta de casamento via skype, algures no tempo em que o fiel escudeiro fez a primeira incursão neste reino distante a Oriente. Proposta essa, meio romantizada, que tanto sucesso faz com as minhas amigas.










sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Grande Galo!

O Ano Novo Chinês traz consigo as previsões. Diversos astrólogos famosos e estudiosos nesta matéria olham para as estrelas, ascendentes, cartas.. ou seja lá o que for, para apresentarem as suas previsões anuais.

A Princesa, nascida em 1980 é do signo chinês Macaco. Que aparentemente se dá muito bem com o galo. Ora vejamos:

- Neste ano aceite as mudanças, não seja picuinhas ou hiper crítico. Impossível! Isto é contra natura. A Princesa não consegue desligar da crítica e é do feitio demasiado auto-consciente.

Mas OK, continuemos.

- Terá uma vida social muito activa. Só se eu encontrar alguém que me faça companhia a ver séries, sentada no sofá, enquanto como batatas fritas. Princesa é caseira! Princesa é preguiça!

Mas sim, um ou outro jantar podem fazer-me mais social. Venham de lá mais previsões.

- Ter vida Social vai fazê-la esquecer a sua vida saudável e regrada. Hein? Então e a parte das batatas fritas no sofá? Faz parte de vida saudável?

Já começo a desconfiar deste galo. Que mais tens aí?

- Não inicie discussões. Estas só lhe trazem problemas. Uma atitude mais pacífica irá resolver estes problemas. Se calhar eu devia ter lido isto antes de discutir com o senhor do táxi, o motorista do autocarro, a senhora da loja, o cliente chato e o colega incompetente.

- Nascidos em 1980 devem ter cuidado para evitar os acidentes. Ouve lá, isto é uma ameaça? Deves querer discutir. Deves!

E mais? Que outras pérolas de sabedoria tens para partilhar?

- A super estrela da Sorte (Sol) torna-a muito activa e encantadora. Se fizer as coisas certas, pode passar todo este ano com um sorriso na cara. Use a sua facilidade em falar e comunicar para criar boas relações, que a irão ajudar a encontrar apoios importantes. Mas atenção, há duas más estrelas no horizonte, por isso não deve tomar quaisquer decisões. Ok, grande ajudinha, hein? Só tenho de sorrir e fazer de morta, é isso?

- Este é o ano de realizar os desejos há muito aguardados. O Amor dá a hipótese de o dinheiro ir chegando até si. Conseguirá o que deseja, harmonia e amor. Cuidado com as doenças de pele.


Portanto se eu sorrir, não discutir, não for hiper crítica, não tomar decisões e socializar mais (enquanto cometo excessos pouco saudáveis - daí as borbulhas na cara!).. irei alcançar, amor, dinheiro e harmonia, é isso? Eu bem sabia que devia estar a fazer qualquer coisa errada até agora!!





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Os dias que se seguem...

Passam hoje 5 dias desde o Novo Ano Chinês. E ao contrário da cultura ocidental onde celebramos apenas o primeiro dia do novo ano, na cultura chinesa celebram-se com feriados nacionais os três primeiros dias do ano.

Como 2017 nos brindou com um fim de semana pelo meio, a celebração - leia-se "feriados" - continuou até hoje, o sexto dia do novo ano.

Tive por isso, uma semana para me entreter com leituras sobre a tradição, superstições e crenças relacionadas com a época. E, por muito que eu tenha vincada minha cultura portuguesa, é impossível ficar indiferente a Macau.

Ficam aqui algumas das minhas tradições favoritas:

- Antes do Ano Novo as famílias limpam a casa para expulsar qualquer coisa que tenha associado má sorte (pó? cotão? ácaros?) e para criar espaço para a sorte que vem com o novo ano. Há aliás um reforço na recolha de lixo de grandes dimensões em Macau nas semanas que antecedem o novo ano, tal é a sede de limpeza. Nunca limpar depois do novo ano. Ah e tal porque a lua trouxe energias renovadas e boas no primeiro dia, e não as queremos espalhar. Mandam as regras que se escondam vassouras, esfregonas, panos e mesmo caixote do lixo. Não vá ser o caso de haver algum azar e limpem a sorte por engano.



- Pendurar frases na porta de casa e à volta da porta de casa na passagem de ano. Conta a lenda que nesta altura do ano o demónio "Nian" desce as montanhas para provocar o caos nas casas alheias, e estas frases escritas em papeis vermelhos impedem o demónio de entrar. Na porta geralmente pendura-se o símbolo 福 que significa "benção", "felicidade" ou "chegar". Basicamente significa que a fortuna vai chegar a esta porta.




- Na passagem de ano, devem certificar-se que cozinham muita comida para o jantar de família. Deve sempre sobrar, para que possam oferecer a quem vier visitar no dia seguinte. Nisto é muito semelhante à cultura portuguesa: mesa farta! Se sobrar quer dizer que vai haver sempre comida em quantidade durante todo o ano. Um dos pratos tradicionais é NianGao, um bolo gelatinoso de farinha de arroz.



- Na passagem de ano todos devem ficar acordados até tarde. O mais tarde possível. É mais uma vez uma guarda aos maus espíritos que nesta altura "atacam" as casas. Tem ainda o sentido de longevidade. Quanto mais tarde se deitam, maior a longevidade na vida.

- Na noite da passagem de ano a tradição é ficar em casa a ver a Gala do Canal de televisão CCTV. Esta tradição não tem qualquer relação com sorte ou fortuna, é apenas um hábito instituído nas famílias chinesas.

- Rebentar panchões, ou fogo de artifício porque eles acreditam que o ruído assusta os maus espíritos.



- Oferecer fruta, especialmente tangerinas porque também são símbolo de boa sorte. São oferecidas entre amigos e família e sempre aos pares, seguindo o provérbio "As coisas boas vêm sempre aos pares".

- As cores são muito importantes e usar roupa interior vermelha é obrigatório para atrair boa sorte no novo ano. Aliás, usar qualquer roupa vermelha ou dourada é muito popular, principalmente com as crianças. Roupa deve ser preferencialmente nova, a estrear. Acima de tudo não usar nada branco ou preto, que são cores associadas a funerais.



- Trocar presentes é um must-do mas jamais se devem oferecer relógios. Estes acessórios significam que o tempo se está acabar (lei-se "já morrias"), ou que as relações estão a chegar ao fim. Outras objectos a evitar: Objectos cortantes, Sapatos, lenços, chapéus de chuva, peras, flores cortadas, espelhos e objectos com cores preta ou branca.

- Evitar usar facas ou tesoura, porque eles acreditam que podem "cortar" a sorte ou fortuna.

- Nestes dias nada de contar histórias de fantasmas. Crianças e adultos estão proibidos de contar estas histórias porque os fantasmas trazem com eles a má sorte. À semelhança disto, devem ser evitadas palavras pejorativas relacionadas com morte, doença, dor, pobreza.. e nada que se pareça com o som da palavra 4. Os eufemismos são ainda mais populares nesta época. O comportamento do primeiro dia dita o mote para os restantes dias do ano, por isso há um esforço para incutir uma atitude positiva.

- Os mais desastrados têm de ter ainda mais cuidado nestes dias para não partir nada no ano novo chinês. Principalmente pratos, copos ou tigelas. A tradição diz que as lascas e cacos significam perdas futuras em fortuna ou morte.

- Não lavar o cabelo nos primeiros dias do ano porque também pode afastar a sorte que veio no ano novo.

- No segundo dia do ano novo é altura de visitar família e amigos, e no terceiro dia altura de viajar para as cidades vizinhas para desejar um feliz ano novo. Não é por acaso que o trânsito (pessoas e veículos) é épico nesta altura do ano - estão previstas 3 mil milhões de viagens (carro, comboio, avião, autocarro, bicicleta.. tudo serve), quase 2 viagens por cada pessoa na China (população de 1,38 mil milhões de pessoas). Antigamente no terceiro dava azar sair de casa porque havia outro demónio à solta, mas actualmente já não se cumpre essa tradição e tem havido um crescimento de viagens nesta altura do ano.




Sources: IBTIMES, TaiwanNews, ChinaHighlights, Forbes.






sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Que fruta estranha é esta que é exibida com tanto orgulho?

O Ano Novo Chinês começa da melhor maneira quanto temos em casas as flores e plantas certas. Ou pelo menos assim acreditam os chineses. Nunca ouvi tantas vezes a palavras auspicioso para descrever plantas, mas é uma coisa muito comum neste lado do mundo.

Durante as semanas que antecedem ao ano novo chinês tem graça ver a Macau mudar e adaptar-se ao Ano Novo Chinês. Para além de lanternas chinesas por todo o lado, há flores, macieiras, tangerinas, e há ainda umas estruturas com um acumulado de coisas que eu sempre achei serem limões deformados.

Uma espécie de massa amarela disforme, com protuberâncias cujo nome se traduz directamente para "Fruta de Mamilos" (nipplefruit), "Cara de Porco" (pig face), ou "Vaquinha", "Peito de Moça".. ou ainda "berinjela-de-cinco-dedos" na versão brasileira!

O cantonês traduz para "planta das cinco gerações" e segundo a tradição local significa o desejo de manter a família unida e ligada aos seus antepassados.

O nome oficial é "Solanum Mammosum" e não são sequer comestíveis. E se calhar não são tão populares em mais lado nenhum do mundo mas aqui.. é vê-los acumulados nas bancas de fruta em bandejas douradas!




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Lai See, etiqueta e regras básicas para Ocidentais

O Ano Novo Chinês está a chegar e Macau já se veste de vermelho e dourado para o receber. Mais uma vez temos a cidade cheia de enfeites e lanternas de papel, de pequenas laranjeiras. Os supermercados estão atolados de caixas de Ferrero Rocher e seus sucedâneos, e as caixas de bolachas empilham-se até ao tecto.
Também os bancos também mostram sinais de que o Ano Novo Chinês se aproxima, com as longas filas para recolher as notas novas para que possam receber o "Ano do Galo" com os bolso cheios de Lai See (利是).
Lai See são pequenos envelopes vermelhos com dinheiro que se oferecem por altura do ano novo chinês. Lai See traduz-se para "Boa Sorte" e oferecer significa desejar boa sorte, fortuna, saúde e prosperidade aos familiares, amigos, colegas, ou mesmo apenas acquaintances, no novo ano que está prestes a começar. Os designs tradicionais são vermelhos e dourados muitas vezes incluem o nome fortuna (福).
Mas não pensem que é esta distribuição é aleatória. E sendo estrangeiros é muito fácil fazer asneira e ficarmos envergonhados. Há uma série de regras e protocolos a cumprir:
- Hierarquia: São oferecidos de "Grande para Pequenos", de "Velhos para Novos" ou "Senior para Júnior". Chefes oferecem aos subordinados, Casados oferecem aos amigos solteiros e aos familiares mais novos, famílias oferecem às crianças. Qdo é o casal a oferecer, entregam-se dois envelopes. Porteiros, empregadas domésticas, senhoras da lavandaria. São todos corridos com ofertas. Basicamente é pensar a quem queremos agradecer por serviços e a quem desejamos boa sorte.
- Os estrangeiros não têm qualquer obrigatoriedade, mas os colegas mais novos e as crianças vão sempre esperar uma prendinha. E muitos deles pedem descaradamente. Se um estrangeiro oferecer moedas de chocolate às crianças também é bem visto. E muito importante: se um amigo local nos oferecer um Lai See, mandam as regras que se retribua no mesmo valor aos filhos deles.
- Dar e receber sempre com as duas mãos como sinal de cortesia.
- Nunca deixar crianças distribuir envelopes a pessoas mais velhas ou a staff porque é considerado insultuoso!
- Valores: A quantidade de dinheiro dentro do envelope varia conforme a proximidade com a pessoa. Empregadas domésticas, senhor do restaurante, segurança do prédio, aquela senhora do supermercado que nos atende todos os dias - 20$. Miúdos pequenos - 10$. Miúdos maiores - 50$. E conforme a relação, podem ir até 500$ (o céu é o limite). 
- Nunca, mas mesmo nunca, oferecer montantes com número 4 incluído (40$ ou 400$) porque o som do número 4 ("sei") é parecido com o som do verbo morte.
- Não distribuir moedas e tentar ter notas novinhas (apenas uma por envelope), que eles dizem fazer "crisp" qdo abrem o envelope.
- Imagem: os envelopes com as notas mais altas geralmente têm um design diferente, para que não se entreguem valores muito altos inadvertidamente. Esses muitas vezes têm o nome de família impresso.


A Princesa e o Fiel Escudeiro não têm por hábito fazer estas ofertas. Sempre achamos que não fazia sentido cumprir esta tradição por não ter qualquer significado para nós. Lá em casa celebramos o Natal, o subsídio de Natal e os presentes. 
E quanto um dos meus colegas me exigiu receber um Lai See a minha resposta foi imediata: "Ofereceste-me presente de Natal? Ai não?! Então também não recebes Lai See!"

Em compensação, entreguei envelopes às crianças. Que, por sinal, ficaram apavoradas!
Mas mais importante que isso é entender a cultura local e respeitar as tradições. Não ofender ninguém e tentar não fazer nada de errado que nos deixe envergonhados. Ou não fosse esse o mote das Princesas!



sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O Radar

Aqui me confesso. A Princesa gosta de ouvir conversas. Sempre que estou num espaço público, esplanada, praia... não há melhor passatempo que ouvir as conversas dos outros. Não é bonito? Pois não. Mas é o meu momento zen. Mindfullness para mim é quando estou a ouvir as conversas dos outros.

Não é de estranhar que a vida no reino de Macau tenha sido difícil, quando na grande maioria das vezes, não percebo o que estão a dizer à minha volta.

Demorei algum tempo a adaptar-me, e a conseguir não ficar nervosa com o desconhecido, com o ruído de fundo composto de sons estranhos, numa língua que não faz qualquer sentido para mim.

Neste momento já tenho a capacidade de ultrapassar os ruídos estranhos. Mas desenvolvi uma capacidade estranha de alerta quando alguém diz uma palavra que eu entendo. Ao ponto de ter medo que, quando regressar ao reino de Portugal, o meu cérebro faça curto-circuito com overload de informação.

Em Macau identifico um português à distância. À primeira palavra, geralmente de queixume (sim, os portugueses pelo mundo estão sempre a reclamar), já estou alerta. Ingleses, Americanos, até Australianos e Irlandeses eu consigo entender. E no open space de trabalho, à mínima amostra de inglês... estou alerta.

Então é sempre com grande surpresa que oiço todos os meus colegas a dizer asneiras em inglês. Mas só as asneiras! Para falar comigo precisam de tradução simultânea, ou ficam num estado de nervos tal que começam a suar profusamente. De tal forma que é visível! Mas é ver um copo de água a cair ao chão e é vê-los a vociferar Fuck! e Shit! como se dominassem a língua.



quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Velho amigo!


A Princesa tem uma nova colega de trabalho. Doze anos mais nova! DOZE ANOS!
Mas quem nos vir lado a lado, não fosse a altivez da Princesa, ninguém diria que temos mais de uma década a separar-nos.

Com o acumular de anos passados no reino de Macau, posso dizer que a cultura chinesa já não me é completamente estranha, já tenho amigas de outras nacionalidades, e já me consigo relacionar com outras pessoas chinesas sem grandes percalços. E como falo pelos cotovelos, conversamos muito e dou-me bem com a coleguinha.

Mas há coisas que são iguais, e que nos separam em todas as culturas. E uma delas é a idade.

E hoje a ficha caiu-me em cima, qual piano de corda.

Comentava de forma descontraída que o Bryan Adam vem cantar a Hong Kong, no reino aqui ao lado.

(Princesa) - Nem acredito que o Bryan Adams vem à Asia. Mas acho os bilhetes um bocado caros.

(Coleguinha, com ar perdido) - O que vai acontecer em Hong Kong?

(Princesa, afina a pronúncia) - Bryan Adams. Ele vem a Hong Kong.

(Coleguinha, ainda incrédula) - O que é isso?

(Princesa, descrente da sua pronúncia) - Bryan Adams. O cantor.


E atiro-lhe logo com o modo Wikipedia para lhe dar mais detalhes do senhor cantor. Para me aperceber que os grandes êxitos dele aconteceram qdo ela ainda nem era nascida. Em compensação, por essa altura, a Princesa já cantava "Summer of 69" e "Everything I do" em qualquer oportunidade.

Posso dizer que todas as minhas rugas de expressão ficaram em choque com a revelação. Sinto-as agora mesmo a querer aparecer.

Pior ainda, porque a desgraçada não parava de dizer "Desculpa! Peço imensa desculpa. Não te estava a chamar velha."

Pois não.. Não estava.

Mas vou já para casa fazer uma máscara hidratante, anti idade, rejuvenescedora.. enquanto oiço os êxitos do velho amigo Bryan Adams.





segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Estranha-se e Entranha-se

Sempre que a Princesa ouve comentários de pessoas que se referem às saudades de Macau como "Saudades dos cheiros de Macau", é atingida por uma colossal onda de assombro. Porque sempre que alguém se refere aos cheiros de Macau, a primeira memória é sempre a do Durian.

Durian é uma fruta muito comum no Sudeste Asiático, com origem na Malásia e na Indonésia. É muito grande, com uma "carapaça" de espinhos muito duros e uma polpa com gomos grandes moles e amarelos. É preciso um profissional para conseguir extrair a polpa.

Aqui em Macau também é muito popular. Vende-se fresco no supermercado, desidratado, em snacks, em sumos, gelados e um sem fim de outro produtos.

Mas esta fruta tem o pior cheiro de todas as frutas do mundo! É como se juntassem carne podre, alho cru e se calhar um equipamento de ginástica usado que ficou a apurar o cheiro sem lavar por umas semanas.

É um cheiro difícil de descrever e impossível de esquecer. Entranha-se na pele e na roupa e não há ambientador ou perfume que nos valha. Os amantes desta fruta chegam a comer de luvas, tal é a dificuldade em eliminar o cheiro da pele. E há vários locais públicos onde é proibido comer a famigerada fruta.

E quando se prova (sim, a Princesa fez pelo menos uma tentativa), a reacção do corpo é imediata: Vómito! O corpo não está preparado para saborear uma coisa que cheira tão mal. São demasiados estímulos sensoriais para conseguir gerir.

O Fiel Escudeiro está proibido de comer isto, trazer isto para casa, estar perto de quem coma isto, passar sequer perto das bancas de fruta que vendem isto. O nariz de perdigueiro da Princesa identifica qualquer derivado de Durian a quilómetros!

E ao longo destes últimos anos a Princesa tem conseguido estar longe deste demónio.

Até hoje!

Depois do almoço no escritório, alguém trouxe como sobremesa uma caixa de Durian fresco. O cheiro identificou-se imediatamente.. começou por ser apenas o leve aroma, mas começou a ficar cada vez mais intenso até ser insuportável.

Se calhar por causa da minha reacção bruta e agressiva, se calhar um bocadinho louca, de ter dito bem alto "QUEM OUSA COMER DURIAN NO OPEN SPACE?!" "QUEM OUSA CONSPURCAR O AR QUE EU RESPIRO?!" os meus colegas, vulgares plebeus, sorveram rapidamente o conteúdo da caixa, recusando-se a confessar quem cometeu tal sacrilégio.

Passadas várias horas ainda se sente o cheiro putrefacto no ar.

Por via das dúvidas, afixei este cartaz no escritório:













terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O que fazer para o almoço?

O palácio onde mora a Princesa e o Fiel Escudeiro fica num bairro tradicional chinês. Prédios mais pequenos, muito incenso a arder à porta de todas as casas, novelas chinesas a tocar bem alto nas televisões.. e vizinhos chineses. Somos os únicos ocidentais do prédio.

Se muitos dos vizinhos nem sequem cumprimentam quando se cruzam connosco, a nossa vizinha do lado adora conversar connosco quando nos vê. Ela farta-se de falar.. é expressiva e bem disposta. O problema é que fala connosco em chinês!

Obviamente não percebemos nada do que ela diz, à excepção da palavra "almoço". Sempre que me vê diz "Lunch!", enquanto gesticula com a mão exemplificando o acto de comer. Manhã, tarde, noite.. sempre a mesma palavra. Lunch! Dita com muito autoridade. Como quem nos conhece bem e sabe que os nossos dias giram à volta da vontade de saciar a fome.

Respondo-lhe sempre com simpatia que sim.. vou sempre almoçar! :)

Estes encontros são sempre curtos, por isso não há tempo para silêncios incómodos ou monólogos em chinês demasiado longos.

Acontece que hoje ela me encontrou na rua. Enquanto eu esperava pelo autocarro para.. lá está... ir a casa almoçar. E o tempo de espera e o percurso ainda demoram uns 15 minutos.

15 minutos preenchidos com apenas uma palavra. Lunch! Bem alto e muito gesticulado.

É tão simpática a nossa vizinha. Tenho muita vontade de a convidar para almoçar connosco.



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Transportes Públicos V 2.0

Não se deixem enganar pelas más línguas e por alguma coisa que oiçam sobre Macau. O nível de evolução do território, redes viárias, transportes públicos e serviços, vai muito além do que nós, vulgares seres ocidentalizados, estamos habituados.

Aqui fica ilustrado o quanto "o povo manda desenrascar".

Sair. Entrar. Sentar. Arejar. Tudo vale a bordo dos transportes públicos de Macau.





domingo, 13 de novembro de 2016

O alfabeto chinês

A medicina tradicional chinesa defende que engolir a própria saliva não é saudável, portanto cuspir na rua ainda é muito comum. Não é bonito de se ver (ou ouvir), e ainda não consigo ficar indiferente quanto isso acontece na minha frente. Mas pelo menos não acontece dentro de portas no meu escritório.

A medicina tradicional chinesa também defende que arrotar é sinal de saúde ou de satisfação, se acontecer no final de uma refeição.

Posto isto, das duas uma: ou trabalho com com a pessoa mais saudável de Macau, ou com a pessoa mais satisfeita.

Quase que juro que ela hoje estava a tentar dizer o alfabeto inteiro em arrotos. Ela! Uma miúda que parece pesar 40kg mas produz mais ar que um balão de ar quente!

A cultura chinesa recomenda eliminar tudo o que faz mal ao corpo e os chineses respeitam os sinais que o corpo dá. Seja qualquer a hora em que venham os sinais. Venha de onde vier esse sinal.

Esses corpos que se segurem!



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Solteiros à solta em Macau

O Dia dos Solteiros é promovido como uma celebração do orgulho em ser solteiro, e a data de 11 de Novembro (11/11) foi escolhida porque aparentemente o número 1 é associado a um indivíduo que está sozinho, e assim juntam logo 4!!

1 = Solteiro
11 = Casal
11+11= Dois indivíduos que se encontram no meio de um grupo

Começou como uma brincadeira na universidade de Nanging, mas desde 2009 que a marca "duplo onze" foi registada pelo Jack Ma, fundador do Alibaba, e movimenta fortunas.

Passou a ser a celebração do consumismo desenfreado, de promoções, de recordes em vendas, de loucura. Passou a ser a Black Friday, versão chinesa.

A ideia inicial tem graça: já que não tens despesas com mais ninguém, gasta o teu dinheiro a comprar coisas para ti!

Macau não foi excepção à loucura!

Por distração fiz o caminho de volta ao escritório pelo meio do centro histórico, e a cada encontrão que levava, a cada grito que ouvia dos megafones dentro das lojas, a cada saco de compras que sentia nas minhas pernas, era relembrada da data!

Por curiosidade fui ver os valores de 2016, para descobrir que ultrapassaram os valores de 2015 (USD14.3 mil milhões):

- em 7 minutos: 1,5 mil milhões USD
- em 24 horas: 17,79 mil milhões USD

Só a Alibaba consegue fazer mais dinheiro num dia, dos que a Black Friday e a Cyber Monday juntas!

E porque a Princesa Ervilha já está devidamente  integrada, passou a noite a bater perna no shopping a manhã seguinte a fazer comprar no Tao Bao! Qualquer desculpa é boa para passar umas horinhas a ver montras :)



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Quem diria..

.. que já passaram 5 anos de aventuras em Macau.

Assinalamos hoje a data em que o Fiel Escudeiro se fez à estrada até ao longínquo reino de Macau.

Celebramos as batalhas, dragões e ogres que se atravessam no caminho. Celebramos as vitórias, os banquetes opíparos e as incursões aos reinos vizinhos.

Exaltamos a partilha, a proximidade, as saudades.









quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Petiscos pós parto

Eu nunca digo que não a comida.. e provo (quase) tudo o que me é oferecido. Depois de 3 anos a morar na China já me apareceram coisas muito estranhas à frente. Ovos pretos (podres), fungos, abalones, ouriços que parecem cobras, músculos de rãs, tartarugas, cobras, escorpiões.. são aqueles que vêm imediatamente à ideia, e que não fui capaz de comer. Mas doces de taro, gelatina de chá, os famosos bolos lunares ou ainda os bolos do ano novo chinês são algumas coisas que já fazem parte da nossa dieta :)

Depois há as orelhas, tripas, línguas e outras miudezas que já estamos habituados a ver em Portugal, e que aqui são um belo espectáculo de ver penduradas no talho. Ou mesmo na tasca à beira da estrada!

Mas hoje foi-me apresentado um prato de pezinhos de porco, cozidos em vinagre preto doce, gengibre e ovos.

A apresentação é no mínimo assustadora, com uma cor preta vibrante que até torna difícil de distinguir uns ingredientes dos outros.

Só tive coragem de provar os ovos, cujo sabor a gengibre é tão forte, que mesmo passadas uma horas ainda sinto. Mas os meus colegas atiraram-se à caixa como tamanha satisfação que dava gosto ver. Não dava tanto gosto de ouvir.

Esta é uma tradição de Cantão. Após o parto as mulheres (ou as suas mães e sogras), fazem estes petiscos para oferecer à família e amigos como forma de anunciar o nascimento. Aparentemente é um prato muito saudável e serve  para reestabelecer forças depois do parto. As desgraçadas não podem sair de casa durante um mês e ainda por cima têm de comer estas coisas!!

Segundo me explicaram tive muita sorte em poder experimentar, porque este é o tipo de iguaria que não há em restaurantes, só mesmo as famílias é que fazem para poder partilhar.

Sorte! Dizem elas!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Galo Híbrido


Se alguma vez me faltar trabalho ao Oriente vou anunciar os meus serviços como "falante" de inglês. Passo a explicar. Há muitos jovens estudantes que vêm para Macau com a ideia de prosseguir os seus estudos com a mais valia de de ficarem fluentes do inglês. As promessas de um curso ministrado em inglês e de hordas de estrangeiros a trabalhar em Macau alimentam essa ideia.

Uma vez em Macau as coisas mudam. Os professores muitas vezes por displicência, outras por pura preguiça usam as suas línguas maternas para as aulas e os grupos de alunos tendem a convivem apenas com os seus pares, nunca convivendo com os famosos estrangeiros.

Dito isto, é sempre com uma exagerada alegria que todas as estagiárias, novas secretárias e ajudantes  part-time mais desempoeiradas querem conversar comigo... só para praticar o seu inglês. Sem qualquer pudor em verbalizar que é apenas para isso que querem conversa. Se possível em frente das amigas para exibir a colega "exótica". Eu!

Numa dessas sessões enquanto fazia tempo à espera de uma reunião a nova secretária veio numa investida para o seu treino diário. E escolheu um tema para dissertar que nunca achei que me fosse fazer tanto incómodo.



Olhava para um Galo de Barcelos como quem vê a Guernica pela primeira vez dizendo que Macau tinha um símbolo maravilhoso.

"Macau? Mas tu não sabes que isso não é símbolo de Macau? Isso é Português, pá!"

E não é que a pequena insolente me responde e contesta a resposta?!
Ah e tal.. eu que não me ponha com ideias porque lhe disseram que aquilo era o símbolo de Macau!

Só me faltou por a mão ao peito enqto lhe explicava que aquele é um símbolo português.. que aliás se chama "Galo de Barcelos". E onde é Barcelos? Pois!

Confesso que enquanto ela discorria em elogios ao bendito galo dei um pulinho à Wikipedia para recuperar a memória da lenda do dito. Mas ainda assim, ciente da minha história.

O fraco conhecimento da história de Macau e da presença dos portugueses nesta terra faz com que Galos, Pasteis de Nata e Calçadas Portuguesas.. e mesmo sanitas, sejam vendidos como souvenirs locais.

E podia nem me ter incomodado, mas confesso que depois do choque inicial e de me ter rido da resposta da coleguinha, fiquei a pensar quanto tempo mais vamos conseguir manter a nossa herança no Oriente. Quanto tempo mais ainda vai fazer sentido ficarmos por estes lados numa versão híbrida da China e Portugal, e ainda por cima falando inglês.

Não admira que esteja em modo emigrante thinking em duas languages at the same tempo!






Ano Novo, posts novos

A Princesa está há mais de dois meses sem escrever no blog? Já chega! :)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Tic Tic Tic Tic Tic Tic Tic Tic

Mais um dia em Macau. Começou calmo, com a humidade a fazer das suas e a trazer a preguiça aos corpos que se esforçam por chegar a horas ao trabalho.
Acabou o café e a Princesa sente que vai demorar a conseguir estar completamente operacional.
A Princesa chega ao escritório ainda dormente de sono, optou por colocar os phones, abstrair-se do movimento no open space e despachar o trabalho pendente.

Tic Tic Tic Tic

Mas há qualquer coisa que não está bem.

Tic Tic Tic Tic

Há qualquer coisa que está a impedir a concentração.

Tic Tic Tic Tic

Os emails, o telefone, o telemóvel..

Tic Tic Tic Tic

Foi então que percebeu que o barulho vinha da vizinha do lado no open space! Aquele barulhinho incomodativo era um corta-unhas que estava a trabalhar com afinco nas mãos habilidosas da jovem que não quis perder tempo em casa, mas também não quer olhar para umas mãos mal tratadas enquanto trabalha.

Ainda bem que tenho óculos de protecção, não vá ser o caso de vir algum objecto não identificado a voar na minha direcção.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Inspira... Expira... Inspira... Expira...

Quem vos disser que a adrenalina de trabalhar num jornal ou revista é maravilhosa não teve dias como os que a Princesa vive. Ter de acabar essa publicação em data e hora determinada, correndo o risco de não estar "nas bancas", debater de forma acesa as opções editoriais (ou a falta delas), vetar opções gráficas, edição-revisão-tradução-edição-revisão, correr a cidade para ir buscar um CD só porque um cliente ainda vive na idade da pedra e não sabe enviar ficheiros de grandes dimensões por email, quase chorar porque um cliente afinal não quer aquela fotografia... nem ilustração.. e na verdade, nem o texto que já estava escrito e aprovado há uma semana. Quem vos disser que o cliente tem sempre razão e que o contacto com vendas é maravilhoso não passou um dia a explicar o impacto visual de um objecto preto num fundo cinzento escuro (muito escuro). E quem vos disser que o trabalho em equipa é muito mais recompensante claramente nunca passou o dia em formato "polvo" tentando assegurar que nada falha, enqto vê os colegas em modo passivo completamente alheados de responsabilidade ou brio profissional. Gritar muito (para dentro!!) face à inércia de alguém parado em frente ao monitor.

E tudo isto recomeça novamente daqui a uns dias...

O mais estranho é que, apesar de todos os problemas desta portuguesa perdida no meio de um open space de 20 chineses (que, by the way, não me percebem e me acham exótica), estou ansiosa pela próxima edição e por mais uma voltinha neste carrossel. Internem-me, por favor, porque eu devo ter um problema :)