quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Petiscos pós parto

Eu nunca digo que não a comida.. e provo (quase) tudo o que me é oferecido. Depois de 3 anos a morar na China já me apareceram coisas muito estranhas à frente. Ovos pretos (podres), fungos, abalones, ouriços que parecem cobras, músculos de rãs, tartarugas, cobras, escorpiões.. são aqueles que vêm imediatamente à ideia, e que não fui capaz de comer. Mas doces de taro, gelatina de chá, os famosos bolos lunares ou ainda os bolos do ano novo chinês são algumas coisas que já fazem parte da nossa dieta :)

Depois há as orelhas, tripas, línguas e outras miudezas que já estamos habituados a ver em Portugal, e que aqui são um belo espectáculo de ver penduradas no talho. Ou mesmo na tasca à beira da estrada!

Mas hoje foi-me apresentado um prato de pezinhos de porco, cozidos em vinagre preto doce, gengibre e ovos.

A apresentação é no mínimo assustadora, com uma cor preta vibrante que até torna difícil de distinguir uns ingredientes dos outros.

Só tive coragem de provar os ovos, cujo sabor a gengibre é tão forte, que mesmo passadas uma horas ainda sinto. Mas os meus colegas atiraram-se à caixa como tamanha satisfação que dava gosto ver. Não dava tanto gosto de ouvir.

Esta é uma tradição de Cantão. Após o parto as mulheres (ou as suas mães e sogras), fazem estes petiscos para oferecer à família e amigos como forma de anunciar o nascimento. Aparentemente é um prato muito saudável e serve  para reestabelecer forças depois do parto. As desgraçadas não podem sair de casa durante um mês e ainda por cima têm de comer estas coisas!!

Segundo me explicaram tive muita sorte em poder experimentar, porque este é o tipo de iguaria que não há em restaurantes, só mesmo as famílias é que fazem para poder partilhar.

Sorte! Dizem elas!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Galo Híbrido


Se alguma vez me faltar trabalho ao Oriente vou anunciar os meus serviços como "falante" de inglês. Passo a explicar. Há muitos jovens estudantes que vêm para Macau com a ideia de prosseguir os seus estudos com a mais valia de de ficarem fluentes do inglês. As promessas de um curso ministrado em inglês e de hordas de estrangeiros a trabalhar em Macau alimentam essa ideia.

Uma vez em Macau as coisas mudam. Os professores muitas vezes por displicência, outras por pura preguiça usam as suas línguas maternas para as aulas e os grupos de alunos tendem a convivem apenas com os seus pares, nunca convivendo com os famosos estrangeiros.

Dito isto, é sempre com uma exagerada alegria que todas as estagiárias, novas secretárias e ajudantes  part-time mais desempoeiradas querem conversar comigo... só para praticar o seu inglês. Sem qualquer pudor em verbalizar que é apenas para isso que querem conversa. Se possível em frente das amigas para exibir a colega "exótica". Eu!

Numa dessas sessões enquanto fazia tempo à espera de uma reunião a nova secretária veio numa investida para o seu treino diário. E escolheu um tema para dissertar que nunca achei que me fosse fazer tanto incómodo.



Olhava para um Galo de Barcelos como quem vê a Guernica pela primeira vez dizendo que Macau tinha um símbolo maravilhoso.

"Macau? Mas tu não sabes que isso não é símbolo de Macau? Isso é Português, pá!"

E não é que a pequena insolente me responde e contesta a resposta?!
Ah e tal.. eu que não me ponha com ideias porque lhe disseram que aquilo era o símbolo de Macau!

Só me faltou por a mão ao peito enqto lhe explicava que aquele é um símbolo português.. que aliás se chama "Galo de Barcelos". E onde é Barcelos? Pois!

Confesso que enquanto ela discorria em elogios ao bendito galo dei um pulinho à Wikipedia para recuperar a memória da lenda do dito. Mas ainda assim, ciente da minha história.

O fraco conhecimento da história de Macau e da presença dos portugueses nesta terra faz com que Galos, Pasteis de Nata e Calçadas Portuguesas.. e mesmo sanitas, sejam vendidos como souvenirs locais.

E podia nem me ter incomodado, mas confesso que depois do choque inicial e de me ter rido da resposta da coleguinha, fiquei a pensar quanto tempo mais vamos conseguir manter a nossa herança no Oriente. Quanto tempo mais ainda vai fazer sentido ficarmos por estes lados numa versão híbrida da China e Portugal, e ainda por cima falando inglês.

Não admira que esteja em modo emigrante thinking em duas languages at the same tempo!






Ano Novo, posts novos

A Princesa está há mais de dois meses sem escrever no blog? Já chega! :)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Tic Tic Tic Tic Tic Tic Tic Tic

Mais um dia em Macau. Começou calmo, com a humidade a fazer das suas e a trazer a preguiça aos corpos que se esforçam por chegar a horas ao trabalho.
Acabou o café e a Princesa sente que vai demorar a conseguir estar completamente operacional.
A Princesa chega ao escritório ainda dormente de sono, optou por colocar os phones, abstrair-se do movimento no open space e despachar o trabalho pendente.

Tic Tic Tic Tic

Mas há qualquer coisa que não está bem.

Tic Tic Tic Tic

Há qualquer coisa que está a impedir a concentração.

Tic Tic Tic Tic

Os emails, o telefone, o telemóvel..

Tic Tic Tic Tic

Foi então que percebeu que o barulho vinha da vizinha do lado no open space! Aquele barulhinho incomodativo era um corta-unhas que estava a trabalhar com afinco nas mãos habilidosas da jovem que não quis perder tempo em casa, mas também não quer olhar para umas mãos mal tratadas enquanto trabalha.

Ainda bem que tenho óculos de protecção, não vá ser o caso de vir algum objecto não identificado a voar na minha direcção.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Inspira... Expira... Inspira... Expira...

Quem vos disser que a adrenalina de trabalhar num jornal ou revista é maravilhosa não teve dias como os que a Princesa vive. Ter de acabar essa publicação em data e hora determinada, correndo o risco de não estar "nas bancas", debater de forma acesa as opções editoriais (ou a falta delas), vetar opções gráficas, edição-revisão-tradução-edição-revisão, correr a cidade para ir buscar um CD só porque um cliente ainda vive na idade da pedra e não sabe enviar ficheiros de grandes dimensões por email, quase chorar porque um cliente afinal não quer aquela fotografia... nem ilustração.. e na verdade, nem o texto que já estava escrito e aprovado há uma semana. Quem vos disser que o cliente tem sempre razão e que o contacto com vendas é maravilhoso não passou um dia a explicar o impacto visual de um objecto preto num fundo cinzento escuro (muito escuro). E quem vos disser que o trabalho em equipa é muito mais recompensante claramente nunca passou o dia em formato "polvo" tentando assegurar que nada falha, enqto vê os colegas em modo passivo completamente alheados de responsabilidade ou brio profissional. Gritar muito (para dentro!!) face à inércia de alguém parado em frente ao monitor.

E tudo isto recomeça novamente daqui a uns dias...

O mais estranho é que, apesar de todos os problemas desta portuguesa perdida no meio de um open space de 20 chineses (que, by the way, não me percebem e me acham exótica), estou ansiosa pela próxima edição e por mais uma voltinha neste carrossel. Internem-me, por favor, porque eu devo ter um problema :)